Partimos na direcção do Gabão com um casal de ingleses. Eles estavam
nervosos por atravessar a fronteira connosco. Talvez porque tivéssemos
ultrapassado o nosso visto e por isso tivéssemos de o falsificar. Talvez
porque não tínhamos seguro. Ou talvez porque não tínhamos a Carnet
d’ Passage. Um documento obrigatório de acordo com o que os outros
viajantes nos tinham dito.
Tínhamos tentado arranjar esse documento antes de partir mas tínhamos
de pagar cinco mil euros. Se pagássemos essa quantia não teríamos
dinheiro para viajar. Assim decidi que iríamos tentar atravessar África
sem a Carnet d’ Passage. Mesmo quando toda a gente, literalmente,
toda a gente, disse que era impossível. Na verdade não conhecemos
ninguém que não tivesse o dito documento. No entanto, nos já íamos
no nosso décimo primeiro país. Era verdade que por vezes tínhamos de
passar algumas horas nas fronteiras, tentado fazer com que as autoridades
acreditassem que a nossa carta de condução internacional era o nosso
modelo de carnet d’ passage. Mas nós tínhamos tempo, o que não
tínhamos era dinheiro.
A fronteira
do Gabão não foi diferente. Aliás, até foi uma das mais fáceis.
O casal de ingleses não
podia acreditar no que via.
- Não têm medo de ser
descobertos? Não ficam nervosos?
- No princípio ficávamos,
mas deixamo-nos de preocupar.
- Mas se eles descobrirem
que não têm a Carnet d’ passage?
- Não sei. Não faço
a mínima idéia do que vai acontecer. Quando lhes digo que não tenho
planos e que vivo a vida dia após dia, não estou a mentir. Eu sei
que deve ser difícil entender o meu estilo de vida. Quase todas as
pessoas têm um plano definido do que vão fazer, faz com que elas se
sintam mais seguras, como se tivessem o poder nas suas mãos. Mesmo
que isso seja o mais irónico e absurdo de todos os pensamentos. Toda
a minha vida ouvi as pessoas dizerem que eu sou maluco, que é impossível,
que não vou conseguir. Mas é na loucura que vive a essência do meu
ser. Os impossíveis sempre foram os rastilhos para a concretização
dos meus sonhos, que sempre foram possíveis. Talvez um dia eu não
vá conseguir fazer algo, mas isso não irá fazer com que eu desista
antes de tentar.
A época das chuvas estava em força. Os rios transbordavam, as pontes
tinham desaparecido, fazendo com que tivéssemos de atravessar vários
rios com água sobre o capô. A selva estava pintada dum verde escuro.
As estradas, digo estradas, só para que entendam o que estou a falar,
estavam transformadas em lamaçais.
Acampar no mato estava-se a tornar
mais difícil. Muitos irão pensar que na selva deverá haver muitos
sítios para acampar, mas estão errados. Além dessa tira de lama por
onde guiámos, só existe uma selva impenetrável. Para cozinhar e dormir
tínhamos de esperar até ao final do dia, quando as pessoas desapareciam.
Sim, também há pessoas a viver na selva, em especial ao pé da estrada.
Aí procurávamos uma estrada das companhias madeireiras e parávamos
onde pensávamos que seria seguro para passar a noite. Depois, cozinhar
à chuva, com um quilo e meio de lama agarrada aos pés. Pois é, viajar
é lindo mas tem os seus momentos de sofrimento.
Quando
se atravessa o Gabão, pouco mais se vê do que pequenas aldeias ou
pequenas palhotas junto à estrada. Onde macacos, ratos, porcos, espinhos
e outros animais do mato estavam pendurados defronte a elas. Na capital
por sua vez encontramos electricidade, água canalizada, supermercados,
caixas multibanco, hotéis, carros de luxo estacionados defronte a casinos,
um verdadeiro oásis de riqueza. Pode-se encontrar de tudo, com os preços
a ultrapassarem três e quatro vezes os preços europeus.
Nós estávamos ali para tentar tirar o visto para Angola, já tínhamos
tentado em Benin e na Nigéria. Gabão não foi diferente, mentiras
e mais mentiras. Tínhamos todos os papéis necessários, mas depois
de uma semana partimos sem o visto mais uma vez. O mesmo aconteceu com
todas as outras pessoas com quem falámos. Parecia que o governo Angolano
não estava interessado em ter turistas no seu país.
Agora,
além de ter o problema do visto para Angola, tínhamos também o problema
do nosso visto para o Congo estar a cinco dias de expirar. Havia duas
opões, ou fazíamos a mesma rota que os outros, que era em direcção
a Francistown e depois viajar pelo Congo até atravessar a fronteira
com a República do Congo (DRC), havia o problema do tempo, seria uma
viagem de pelo menos sete dias sem problemas, o que era raro connosco
e não conseguíamos falsificar o visto, ou, a outra hipótese seria
ir em direcção ao sul pelo Gabão. Se olharem para o mapa verão que
a distância é muito mais pequena. Está claro que havia um senão.
Tínhamos de atravessar uma área no Congo que estava controlada pelos
rebeldes.
A guerra entre eles e o governo estendia-se por muitos anos.
Eles controlavam uma importante parte do pais, a área entre a capital,
Brasaville e Poin d’ Noire, que é a maior porta de entrada de bens
no pais. Nos últimos anos parecia que o governo e os Ningas (grupo
rebelde) tinham chegado a um acordo e as coisas estavam mais calmas.
Poucos eram aqueles que tinham atravessado esta área, alguns tinham
atravessado sem problemas, outros tinham sido mandados parar em blocos
de estrada e atacados com catanas, mas fugiram sem problemas. Outros
tinha perdido o carro, o dinheiro, a roupa, mas tinham sobrevivido.
Havia
50% de possibilidade de atravessar, nós tínhamos a fama de ser malucos,
mais valia ter o proveito.
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