Na Namíbia pela primeira vez, em toda a viagem encontrámos um
supermercado. Não podem fazer idéia de como um supermercado pode ser
importante até não terem um.
Quando vimos toda aquela diversidade de comida, cheiros, opções, que
mesmo que não quiséssemos, poderíamos ter, foi libertador. O que iremos
comer? Porco, vaca, camelo, bisonte. Que tal vegetariano? Não, na
verdade nunca pensámos nesta opção. Nos últimos oito meses foi o que
mais comemos, verdade seja dita, eu já estava farto até aos cabelos de
tudo o que seja verde.
Infelizmente a felicidade de ter supermercados e outras comodidades não
foram o suficiente, para uma felicidade eterna. Por alguma razão, que eu
continuo a desconhecer, a Annemiek, depois de 12 países ainda não tinha
entendido que se deve fechar as portas em todas as fronteiras, se não,
mesmo em qualquer sítio que se deixa o carro.
De qualquer maneira, ela
esqueceu-se desse pequeno detalhe, enquanto foi levantar dinheiro à
caixa multibanco. Entretanto, alguém pensou que a minha máquina
fotográfica, era algo incómodo para mim e decidiu levar a única coisa de
valor que eu dou importância. Foi só quando ela veio aos gritos na minha
direcção, dizendo que alguém estava a roubar o carro que eu me apercebi
do que se estava passar.
Era demasiado tarde, por muitas chapadas que
desse ao primeiro gajo que encontrei, ele nunca me pôde dizer onde
estava a minha máquina. Talvez porque não soubesse. O que eu realmente
duvido, mesmo que não tenha sido ele.
Não era a máquina que eu lamentava, era o seu conteúdo.
Chorei. Chorei muito. Pela primeira vez naquela viagem, não pude conter
as minhas emoções. Gritei até os meus pulmões não puderem mais, até as
veias da minha cabeça incharem até ao limite das suas capacidades.
Odiava a Annemiek, odiava o mundo, odiava a mim mesmo por deixar que
isso acontecesse.
Naquela câmara estavam fotografias de gorilas, de elefantes da
floresta, dos pigmeus, estavam os diamantes do meu tesouro, as razões do
meu viver.
Enquanto as lágrimas escorriam pela minha face, pensando o pobre que
era, um raio de claridade caiu sobre mim.
- Como posso eu chorar e lamentar a perda de algumas fotos? Como posso
eu lamentar-me da minha sorte?
Alguns nem têm a sorte de poder sonhar
livremente. Como os rapazes da Guiné.
Como posso eu dizer que a minha
vida é miserável depois de ver a vida do Guiome, ele não pode sequer ir
à casa de banho sem a ajuda de alguém. Aquele homem, que não se podia
mover sem a ajuda de ninguém não chorava pela sua sorte mas sim lutava
pelo seu sonho. Como poderia eu ser tão mesquinho? Ao pensar tal,
senti-me insignificante. Enquanto limpava as lágrimas, disse em voz
alta, nunca, nunca irei queixar-me do que a vida me dá. Sempre pode ser
pior. Nunca te esqueças disso.
Namíbia foi sem dúvida uma lufada de ar fresco. Tudo mudou de um dia
para o outro. Tínhamos agora supermercados. Vocês não podem realmente
entender o que isso significa até não terem um a menos de vinte minutos
da vossa casa, campismos, e o mais importante, parques naturais.
Toda a
gente que vem a África quer ver os animais africanos, os mesmos que vêem
cada domingo pela manhã no conforto do seu sofá. Namíbia tinha tudo isso
para dar e muito mais.
O primeiro parque natural que fomos, foi o ETOSHA N.P, centenas de
animais desfilaram defronte dos nossos olhos. Eu, de um momento para o
outro deixei de entender o que se passava à minha volta. Será que estava
de volta ao meu sofá e deslumbrava a beleza daqueles animais defronte a
um vidro? Será que era realmente possível estar na planície africana
vendo girafas, zebras, kudus, impalas, avestruzes e outras centenas de
animais ao meu lado?
Tinha viajado da Europa até ali, oito meses, mesmo
assim, não podia acreditar. Desde criança que sonhara, que um dia iria
até ali. Que iria ver com os meus olhos aquilo que tantas vezes vi
naquele ecrã. Era tão grande o sonho que a realidade parecia impossível.
Depois de Etosha NP, fomos em direcção ao deserto onde as tribos Himba
continuam a viver. Os Himba são extraordinários, não só pela sua
capacidade de encontrar água e viver num sitio que as maioria das
pessoas diria que seria impossível (certamente por necessidade, já que
os colonizadores não lhes deixaram mais nenhum sitio para ir) mas também
por em toda a sua vida não tomarem banho.
Eles revestem a sua pele de
gordura de animal e em seguida cobrem-se de terra vermelha, dando uma
coloração mágica à sua pele. Já o cheiro não será o mais atractivo como
podem imaginar. Se um dia tiverem a sorte (dependente do ponto de vista)
de dar boleia a um Himba, certamente irão notar que não esquecem o seu
odor até ao momento que venderem o carro.
Passámos grande parte do tempo ao longo da costa, onde os dias eram
passados a pescar. Enquanto os chacais nos rondavam vindos do deserto, o
mesmo deserto que contem as dunas mais altas do mundo. A visão no topo
dessas dunas, enche-nos o coração de sentimentos, as cabeças de
fantasias, faz-nos entender o insignificante que somos e amar
perdidamente o que temos.
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