Voltámos uma vez mais a Maun, aí pela primeira vez em duas semanas fomos
à Internet. No momento que a página se abriu, o meu coração bateu mais
forte. Com a mão tremendo sobre o teclado vi a lista de mensagens. A
minha irmã, Cera, Daniel, Miguel, João, klive e outras pessoas que já
não falava à muito. Todos os títulos das mensagens diziam o mesmo –
Hélio, telefona para a tua irmã.
Não havia mais texto, apenas isso.
A
Annemiek olhou-me, no seu e-mail haviam muitas outras mensagens de
amigos e família a dizer o mesmo. Por segundos fiquei paralisado. Sabia
que o que quer que fosse, não poderia ser bom.
- Paula, sou eu. O que se passa?
- Fui ontem com a mãe ao hospital. O cancro está agora na cabeça. Sete
ao total. Eles dizem que não há mais nada a fazer. Dizem que é uma
questão de meses.
Se perguntarem a um viajante, o que ele mais teme durante as suas
viagens, quase todos, se não mesmo todos, irão responder - não poder
voltar a tempo para ver alguém que amo.
Esse era, foi e é, o meu maior medo. Tinha tido pesadelos durante todos
esses anos com a chegada desse dia. De um momento para o outro, os
sonhos, desejos, fantasias, medos, raiva, tudo que há uns minutos atrás
fazia parte do meu mundo evaporou-se. Começou aí o capítulo da minha
vida que até hoje não consigo entender.
Voltei a Portugal com a Annemiek o mais depressa que pude. Queria
surpreender a minha querida mãe. Cheguei inesperadamente pela manhã em
casa. Ela ainda estava na cama. O seu cabelo negro que ela tanto orgulho
tinha, era agora uma camada fraca, quase invisível de pequenos cabelos
brancos. A sua cara pálida e fraca mostrava uma dor profunda.
O seu corpo frágil ergueu-se ao ver-me junto à porta. As suas pernas
fracas arrastaram-se até ao meu encontro e os seus braços enrolaram-se
em volta do meu corpo. Os meus braços enrolaram-se em redor ao seu
corpo, senti o calor, aquele amor, o seu cheiro, a sua pele. Fiz tudo
por tudo para não chorar, engoli aquelas lágrimas como se de veneno elas
fossem. Estava ali para ajudar a minha querida mãe, não para a fazer
mais triste. Não interessava a minha dor, pois a dela era a maior de
todas as dores.
Os dias foram passando entre doses de insulina, comprimidos, medidas de
tensão e idas ao hospital. Todos os dias ía-mos ao café com as vizinhas.
Elas faziam-lhe companhia, faziam com que ela se risse. O espaço de cada
gargalhada era o tempo que ela tinha para não sentir a dor que lhe
enchia o corpo.
Eu e a Annemiek estávamos a pensar em casar já fazia algum tempo. Tanto
ela como eu queríamos que a minha mãe estivesse presente nesse momento.
Assim foi. Um mês depois o nosso casamento foi realizado, numa quinta
perto de Caneças. Onde estava a família da Annemiek, a minha família e
amigos. Foi um dia bonito. A minha mãe com todas as forças que tinha
acompanhou-me no salão de dança. Ela tinha tomado doses a triplicar para
poder estar ali mas mesmo assim nos seus olhos brilhava a alegria do
sonho realizado.
No dia seguinte a minha mãe entrou de urgência no hospital.
Todos os dias eu e a Annemiek, sentávamo-nos ao lado da sua cama falando
de coisas sem importância. Ela perguntava - porque que não vais em lua
de mel, eu estou bem - Eu estou sempre de lua de mel, a minha vida é uma
viagem. Agora estou em Lisboa, para mim isso são férias – dizia rindo.
Ela olhava-me com os seus olhos doces, sabendo perfeitamente que eu
estava a mentir, mas a mentira encobria um pouco da dor que trazia a
verdade. Todos os dias as vizinhas vinham (a quem eu agradeço
imensamente) como os membros da família mais chegados. Todos os dias
dizia para que por favor não chorassem defronte a ela.
Algumas pessoas possivelmente pensaram que eu era um cubo de gelo, pela
minha frieza e falta de emoções. Eu queria chorar, eu queria gritar da
mesma maneira que a minha irmã, o meu pai, o meu cunhado, a minha tia e
todos aqueles que a amavam queriam ou faziam o mesmo. Mas a única pessoa
que eu queria fazer feliz era a minha mãe. Eu não via como a poderia
fazer feliz, perante a visão das minhas lágrimas ou da minha dor. Por
isso preferi sofrer em silêncio.
As conversas com ela começaram a ser mais raras. As máquinas começaram a
acumular-se ao redor da sua cama, as enfermeiras e enfermeiros já não
diziam para sair do quarto, apenas nos olhavam com compaixão, com os
seus olhos dizendo a verdade que a sua boca temia em soletrar.
A minha mãe, Idalina Lourenço Domingos Gomes, casada com João Manuel
Pereira Gomes, mãe de Paula Alexandra Domingos Gomes Barata e Hélio
António Domingos Gomes, avó de Sofia Alexandra Gomes Barata e irmã de
Fernanda Domingos, morreu no dia 29 de Junho de 2008, numa manhã de
domingo.
Amo-te, Amo-te muito minha mãe.