Tínhamos conseguido fugir, o que não sabíamos era para onde. Os nossos
amigos Ningas tinham dito que a estrada era sempre em frente mas isso
era o que ouvíamos desde Marrocos.
Só depois de andar a pé pelo meio
do capim, descobri a dita estrada que parecia ir em direcção às montanhas.
Pelos meus cálculos não demoraria mais de 7 ou 8 horas até chegar
a Matadi, onde poderíamos atravessar para Angola. As vistas eram fenomenais,
com a estrada a beijar o topo das montanhas, só para voltar a descer
aos vales, onde corriam rios caldosos que davam vida a uma selva deslumbrante.
Apesar das vistas serem fantásticas, depressa nos deparámos com a
realidade, não seriam 8 ou 16 ou mesmo 24 horas até Matadi.
No primeiro dia fizemos
70 quilómetros, dissemos a nós mesmos que tinha sido um dia mau.
Não o teríamos dito
se soubéssemos o que nos esperava no outro dia. Onze horas foi o tempo
que gastámos para fazer 36 quilómetros, 90% desse tempo foi a desenterrar
o carro do lamaçal por onde viajávamos.
Cabelo, olhos, nariz, boca,
cada poro do meu corpo coberto de lama e sem nunca poder tomar um banho.
Foram os quatro dias mais estafantes e miseráveis até esse dia. À
chegada a Matadi eu não queria saber quanto é que iria custar, o que
eu queria era um quarto de hotel, com uma casa de banho. Pagámos 100
dólares por uma noite e mais 100 em comida e bebida. Como soube bem.
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