Foi no consulado de Angola em Matadi, que finalmente conseguimos tirar
o visto. A duração do mesmo é que deixava muito a desejar, cinco
dias era o máximo que nos podiam dar, disseram eles. Falar com o cônsul
não ajudou, apesar de ser muito simpático, a duração do visto mantêve-se.
Ele disse no entanto que em Luanda, o visto poderia ser prolongado por
30 dias sem problemas. Havia no entanto de pagar mais 100 dólares.
Com os 100 dólares que já tínhamos pago para conseguir estes 5 dias,
este seria sem dúvida o visto mais caro e mais difícil de obter.
Apesar de muita gente dizer que Angola é um país extremamente perigoso
nós nunca sentimos isso, pelo contrário. Nós dormimos no mato como
sempre, só que desta vez, devido ao perigo das minas, que continua
a ser uma realidade muito presente, dormíamos ao lado da estrada, com
pessoas a passar a todo o tempo. Com muita educação diziam bom dia
ou boa tarde à sua passagem, sem nunca apresentar nenhum problema.
Os problemas
mecânicos, estes sim, dia após dia, eram mais, agora foram os parafusos
dum pneu que se partiram. Sorte que vi o problema a tempo, de outra
maneira poderia ver o meu pneu a passar-me à frente. Tirando um parafuso
de cada roda consegui resolver o problema, isso devia ser o suficiente
para chegar a N' ZETO, que ficava uns quilómetros mais à frente.
Os
edifícios de estilo português alinham-se dos dois lados da estrada, com
a mesma a ser dividida por uma linha de árvores, plantadas à muito. Com
um olhar mais atento vê-se os buracos das balas cravadas nas suas
fachadas, que parecem gritar os horrores da
guerra.
No final da estrada, virando para a direita, está um talho, um pequena
mercearia e um restaurante, a senhora que vende gasóleo ao bidon ficava
do outro lado da rua. Ao redor destes idosos falavam a sombra das árvores.
- Todos partiram
- disse um dos idosos.
- Uns foram para Luanda,
outros Portugal e África do Sul. Só ficaram os velhos.
As barreiras
militares e polícias faziam acreditar que estávamos perto de Luanda.
Tal como a melhoria das condições da estrada. Passámos a barra do
Dande vendo o mar que parecia convidar para o refrescante mergulho,
mas Luanda estava a apenas a uns quilómetros. Depois de renovar o visto,
poderíamos descontrair e beijar as águas angolanas.
Dois grandes
amigos meus vivem em Luanda, queria fazer-lhes uma surpresa e aparecer
no seu escritório. Eram 15.30 h quando chegámos às periferias de
Luanda. Pensei, mais uma horita e já devemos lá estar, o que eu não
contava, era com o trânsito caótico de Luanda.
A cidade foi feita para
800.000 pessoas, estão a viver nela 6 milhões. Podemos dizer que tivemos
tempo para ver a cidade em detalhe, já que maior parte do tempo tivemos
parados. Eram 19.50 h quando chegámos ao Prenda, onde fica o escritório.
Os meus amigos não podiam acreditar, não só que tínhamos chegado
ali, por nós próprios, mas também pela cor acastanhada que a nossa
pele e roupa demonstrava.
No outro
dia o visto começou a ser tratado e com isso não nos preocupámos
mais. O resto do tempo foi passado a desfrutar da companhia dos meus
amigos em churrascos e a beber a bela da cuca. A ver a enorme diferença
de estilos de vida que se vive em Luanda. Por exemplo, fomos comer com
os meus amigos ao restaurante. Uma garrafa de água, duas de vinho e
quatro refeições normais custaram 400 dólares, lavar o carro 80 dólares
mas uma empregada de limpeza ganha 100 dólares por mês.
Depois de
5 dias de espera, às 17:00 h recebemos a notícia. A imigração angolana
disse, que o nosso visto não podia ser renovado. Disse também, que
nenhum visto por terra pode ser renovado. O que significava que o cônsul
em Matadi era um mentiroso e que a imigração em Luanda, uns incompetentes,
já que demoraram 5 dias para dar uma resposta que eles já deveriam
saber no momento que os papéis entraram.
Estávamos a 1 000 quilómetros
da fronteira, era suposto sair do país naquele mesmo dia. O carro não
tinha sido arranjado porque pensamos que tínhamos tempo suficiente.
Os cinco dias que tínhamos passado no paraíso agora estavam a transformar-se
num inferno.
Estava
acordado desde as 06:00 h mas teria de partir imediatamente e assim
foi.
A estrada até ao Lobito
estava em boas condições e foi feita sem problemas, sem contar com
os polícias bêbados que nos mandavam parar. Eu nesses momentos seguia
os conselhos dos meus amigos - se eles não tiverem carro não pares
- assim foi, nunca parei.
Foi a partir de Lobito, na estrada que vai para Huambo que as coisas
se complicaram, além da estrada virar em lamaçal, também uma tempestade
de proporções bíblicas acompanhou-nos toda a noite. Num dos troços
da estrada, estavam pelo menos cinquenta camiões, carrinhas e carros
atolados uns atrás dos outros.
No final do segundo dia, já de noite,
a uns 100 quilómetros da fronteira da Namíbia, o pneu de trás do
lado direito saiu do carro, fazendo com que quase capotássemos. Sai
a correr para ver o que se tinha passado. A Annemiek parecia já saber
ou não queria saber. Ela estava ao lado do carro chorando e em soluços
perguntando o porquê de tanto azar.
Eu na verdade queria fazer o mesmo.
Por momentos enrolei os meus braços de volta do meu corpo e chorei
copiosamente enquanto a chuva caia sobre mim. Estava acordado há 52
horas, sem ser os cinco dias em Luanda, não tínhamos tido um momento de
descanso desde os Camarões.
O pneu tinha desaparecido na escuridão da
noite. Já estávamos há dois dias ilegais em Angola e pelo menos três
teríamos de ficar. Eram 100 dólares por cada pessoa, por dia, seriam
600 dólares. Olhei uma vez mais para a Annemiek, ela estava de joelhos
no chão, continuando a chorar e a amaldiçoar todos os deuses.
-
Não vamos poder dormir na tenda no telhado. - Disse firmemente enquanto
limpava as lágrimas do meu rosto - Metemos a outra no chão. Não nos
podemos queixar, podia ser muito pior, podíamos ter capotado e morrido.
É apenas o mundo a meter-nos à prova, vais ver que tudo irá ficar
bem.
Estas
palavras saíam da minha boca mas nesse momento pouco acreditava nelas.
Sabia de qualquer maneira que teria de ser forte se queria ultrapassar
este momento.
Enquanto
nos preparávamos para passar ali a noite, um carro veio na nossa direcção.
Era um Hummer, alguém que tem um carro desse valor tem de ser importante,
pensei.
- O que se passa? - perguntou
a pessoa de dentro do carro.
Eu contei a nossa história,
referindo que iríamos ultrapassar o visto de entrada, pelo menos por
três dias.
- Não há problema,
quando chegarem à fronteira, digam que falaram comigo e que eu disse
que podiam passar sem pagar nada. O meu nome é General Zé Brigadão.
No
outro dia comecei por encontrar o pneu, que estava a uns 100 metros
do carro. Depois tentei arranjar o problema, já não podia tirar mais
parafusos das outras rodas, por isso tentei utilizar alguns parafusos
que tinha trazido comigo.
Infelizmente, todos eram demasiados grandes
mas a sorte veio bater à porta como na noite passada. Outros viajantes
da Noruega estavam de passagem e com eles as ferramentas necessárias
para arranjar o carro.
Também
eles tinham ultrapassado o visto de entrada e estavam preocupados com
a imigração. Viajámos juntos para a fronteira, onde eu tratei dos
papéis com a imigração. O nome Zé Brigadão foi como se eu tivesse
falado em deus em pessoa. Sem problemas deixámos Angola para trás.
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