Logótipo do Semplanos.com  

Passagem pelo Congo

Estávamos a viajar à quatro horas no Congo, mas ainda na parte controlada pelo governo, quando o pior aconteceu. Quando saiamos de uma curva um carro estava parado no meio do meu lado da estrada. Pus travões a fundo, isso abrandou mas não parou o carro de deslizar e embater com o toyota carola.

- Pára - gritou a Annemiek.

- Nem pensar, eles matam-nos mesmo antes de sair do carro. Iremos ao primeiro posto de polícia e aí vemos o que fazer. 

Pela primeira vez em toda a viagem, vi a minha vida a andar para trás.

- Dá-me um cigarro.

- Tu não fumas, em especial às nove da manhã.

- Talvez vá ser a última vez que o faço enquanto virgem. 

Já me via numa cadeia congolesa a apanhar sabonetes. Só o pensamento já era doloroso.

Não foi preciso ir à polícia, eles estavam a cinquenta quilómetros mais a frente à nossa espera. Até hoje não sei como souberam do acidente tão rapidamente, mas as suas metralhadoras apontadas ao carro faziam entender que queriam que parássemos. 

- A culpa do acidente não foi minha, ele estava do meu lado da estrada. 

Eles olharam-me. Com aquele olhar que dizia, mais valia estares calado. O mesmo olhar fez-me relembrar dos sabonetes na cadeia congolesa. A dureza do pensamento rapidamente fez-me mudar de estratégia. Tinha 500 dólares em dinheiro o que seria mais que o suficiente para arranjar o corola, se eu por duzentos tinha arranjado um Land Cruiser.

Mas não, o senhor do carro tinha outras ideias. No relatório que tinha dado à policia, dizia que o seu estimado carro, mesmo antes do acidente já parecia uma lata de sardinhas sobre rodas. Tinha no interior um frigorifico, televisão, rádio com leitor de cd's e ainda, os faróis dos dois lados partidos, os vidros tanto do lado esquerdo como do direito, como também o da frente e o de trás. E ainda, a bateria, sem esquecer da ventoinha. Arredondando seria 2500 euros. 

- Não vou pagar, estou disposto a pagar 500 dólares que daria para arranjar o carro e ainda para o senhor ir passar férias, mas agora vendo a sua ganância não vou pagar nada. Além disso a culpa do acidente não foi minha, ninguém até agora perguntou como o acidente ocorreu. Se o senhor do carro quer esse dinheiro vai ter de falar com a minha companhia de seguros.

- A gente aqui não trabalha com seguros. 

Isso apenas confirmou a minha suspeita, que um seguro em África era ridículo e que a minha decisão de viajar com documentos do seguro falsos tinha sido acertada como barata. 

- Se não quer pagar vai ter de voltar para a outra vila e falar com a policia de lá para resolver o assunto.

- Não. Eu estou na polícia. Daqui eu vou para a frente não para trás. Os policias que estão na outra esquadra são corruptos e gananciosos como a pessoa do carro. Eles sabem perfeitamente, tal como os senhores, que nada que esse senhor do carro está a dizer é verdade. No entanto, estão a deixar que as coisas sigam em diante, isso é porque eles estão a ganhar algum.

- Então o senhor vai ter de ser preso.

- Muito bem, quero telefonar à minha embaixada e a um advogado. Eu tenho um seguro internacional, o meu advogado e a minha embaixada irão tratar do assunto. Eu não tenho de pagar nada. 

Agora empregava a estratégia do ataque. Sabia perfeitamente que telefonar à minha embaixada seria uma perda de tempo, isso se existisse uma no Congo. Provavelmente estava fechada, como acontecera outras vezes noutras partes do mundo.

Era como se jogasse poker, um bom bluff era o mesmo que boas cartas, isso dava para eles entenderem que eu não tinha nada a temer.

- Não é preciso chegar a este ponto - disse o comandante menos autoritariamente.  

Já se tinham passado seis horas e nada estava resolvido, vendo a situação imóvel decidi lançar as minhas cartas. 

Anos de viagens tinham-me ensinado a guardar alguns documentos que na Europa pouco servem mas em países menos desenvolvidos são ouro sobre azul. Entre eles estão, papéis de seguros, cartões de crédito caducados, cartas de condução e mais alguns que terei de omitir.

- Muito bem, eu pago os 2500 dólares. Terei de ir primeiro à capital para levantar o dinheiro do banco. Aqui consigo irei deixar os meus cartões de crédito, a minha carta de condução e os papéis do seguro. Como vê terei de voltar para os reaver.

- Está bem, de qualquer maneira vou precisar da morada e o número de telefone de alguém que conheçam em Brasaville.  

Está claro que não conhecia ninguém em Brasaville. 

- Sim, eu tenho a morada dum amigo que vive lá. É um mecânico. Infelizmente não tenho o seu número de telefone. 

Corri para o carro em busca do Lonely Planet, abri na secção de Brasaville e tirei a primeira morada que vi, só mudando o número da porta. O nome do meu amigo fictício era João Mendes. Voltei para dentro dando todos os documentos e a morada.

- Agora terei de confirmar se esta pessoa vive lá - disse o comandante. 

Agora é que eu estou lixado, pensei para mim mesmo. Além de descobrirem que não existe ninguém com esse nome nessa morada também vão desconfiar dos papéis.

Passaram-se mais quatro horas quando comecei aos gritos. Mais de medo do que coragem.

- São todos um bando de incompetentes. Não fui culpado do acidente, provavelmente sou a única pessoa com seguro neste país, já dei todos os papéis possíveis e imaginários e ainda tenho de esperar horas a fio. Os meus gritos continuaram até os guardas não me poderem mais ouvir.

- A resposta chegou - disse o comandante.

Adeus liberdade, pensei, enquanto a lembrança dos sabonetes fizesse com que apertasse o rabo.

- João Mendes tem uma oficina nesta morada.

Descontraindo o rabo, gritei - Está claro, isso foi o que eu disse horas atrás.

Na verdade o grito era mais de alegria.

Apesar de todo o azar, estávamos com muita sorte. Não sei se eles nos estavam a deixar ir porque estavam fartos de nos ouvir ou porque realmente havia alguém com esse nome naquela morada, o que seria quase impossível de acreditar. Provavelmente nunca saberei a verdade.

Mas a história não acaba aqui. Teríamos de parar em todos os postos de polícia até chegar a Brasaville. Ai teríamos de ser escoltados a um tal general a quem teríamos de dar o dinheiro, ele por sua vez dava-nos os papéis de volta. As coisas estavam a ficar mais graves, agora já havia um general envolvido. Isso cheirava-me a mais dinheiro e a problemas mais graves.

Quando saímos da polícia não houve tempo para mais nada do que arranjar um sítio no mato para passar a noite. Perguntas e medos enchiam as nossas cabeças. Que fazer? 

Está claro que a ideia era de fugir. Eu tinha visto no mapa, que havia uma fronteira na área controlada pelos rebeldes, talvez ai houvesse a possibilidade de atravessar para República Democrática do Congo. Mas, e se esta estrada fosse como a do norte do Congo, que não passava de um risco no mapa? E mesmo que, se existisse, como seria com os rebeldes? Teríamos de esperar pela manhã seguinte para descobrir as respostas às nossas perguntas.

Os rebeldes relembram-me Bob Marley. Têm a mesma cor, o mesmo estilo de cabelo e definitivamente o mesmo ar de mocado. A diferença está que em vez de terem o charro numa mão e o microfone na outra, têm o charro numa mão e a metralhadora na outra. Na minha opinião, são uns gajos simpáticos. Nunca revistaram o carro, nunca pediram dinheiro e não nos tentaram roubar ou matar.

Na fronteira não podiam estar menos interessados no que estávamos ali a fazer, certamente que os charros que estavam a fumar ajudaram. Nada a dizer dos Bob Marley Ningas, apenas que são uns gajos mesmo porreiros. 

Links relacionados


 
Pesquisa
Mergulhe com os viajantes SemPlanos no México
SocialTwist Tell-a-Friend Construção de site por Visibilidade.net
Página com ligações robustecidas pelo Arquivo.pt.