De volta aos Camarões, mais uma vez a arte
de dialogar foi a nossa arma. Mais uma vez foi mais fácil do que esperávamos.
Dois rapazes vieram ao nosso
encontro na fronteira. Perguntaram se lhes podíamos dar uma boleia,
eram simpáticos e bem educados. Podia ter dito que não, como fiz outras
vezes. Mas os seus olhos de tristeza que não deixavam o chão fez com
que rasgassem o meu coração. Era tristeza e dor que habitava neles.
Também eu um dia, tinha tido o mesmo olhar e sabia o quanto doía.
Disse para virem. Infelizmente ou felizmente a meio da viagem tivemos
problemas mecânicos, por isso tive de lhes dizer que teríamos de dormir
na selva por essa noite. Foi como se o seu mundo desabasse sobre eles.
Os seus joelhos caíram por terra, as suas mãos juntas ergueram-se
para nós. Um deles começou a chorar repetindo vezes sem conta "não
nos deixem aqui, não nos deixem aqui"
- Não há problema, nós temos comida,
temos uma tenda onde podem dormir. Amanhã vamos levá-los até onde
querem ir.
Enquanto comíamos
pedi-lhes que nos contassem a sua história. Quem eram eles? O que faziam
ali? Com um longo suspiro soluçaram a sua história de tristeza.
- Nós somos da Guiné Conacri, eramos
pastores mas queríamos uma vida melhor. Há seis meses atrás partimos
da nossa vila, para ir até Angola. Dizem que lá pode-se ganhar bom
dinheiro.
- Mas o que fazem aqui na selva entre
os Camarões e o Congo?
- Em cada fronteira ou em cada posto
militar ou policial as autoridades pedem-nos dinheiro, por isso temos
que ir pelas fronteiras mais pequenas onde não nos pedem tanto.
- Mas têm passaporte?
- Sim temos.
- Então porque pagam aos polícias?
Eles não podem fazer nada.
- Não se fores africano.
- Não deviam de ir para o Congo e viajar
para sul?
- Porque é que vocês estavam com tanto
medo, quando lhes disse que teríamos de passar a noite aqui?
- Pensei que nos iam deixar aqui, como
fazem os camionistas.
- Eles deixam-vos no meio da selva?
- Quando entramos no camião combinamos
um preço mas a meio do caminho eles param e pedem mais dinheiro ou
deixam-nos ali. Quando chegámos à fronteira pensámos que depois de
pagar eles nos deixavam seguir, mas não.
-Os seus olhos que tinham ganho vida
ao ver a comida agora voltaram a ser um lago de tristezas de um orgulho
quebrado.
- Eles tiraram todo o nosso dinheiro,
tiraram as nossas roupas enquanto nos pontapeavam, revistaram todos
os buracos do nosso corpo. Riam enquanto escolhiam as roupas que queriam
para eles. Pedimos que tivessem piedade de nós. Eles bateram-nos com
mais força e riram mais alto.
No outro dia
levámo-los até onde eles queriam ir, demos toda a comida que tínhamos
e mais cem euros, foi pouco eu sei mas não podíamos dar muito mais.
Gostava que África mudasse, gostava que o mundo mudasse. Gostava de
não chorar quando escrevo acerca do que vi.
Os problemas mecânicos
continuaram, desta vez a caixa de velocidades. Assim em nove dias a nossa
vida parecia que se tinha desmoronado. Primeiro os travões, depois
o acidente, a janela de trás que se tinha partido, o suporte da tenda
que estava agarrado ao telhado que estava partido, a policia na fronteira,
a nossa tentativa falhada de descer o Congo, os vistos que estavam a
acabar e agora a caixa de velocidades partida. Estávamos a uns oitocentos
e cinquenta quilómetros de Youndé, onde talvez pudéssemos arranjar
o carro. A terceira mudança tinha ficado presa e era assim que
teria de viajar se quisesse ir a algum lado.
Não era só o carro que se estava a
desfazer, também a relação entre mim e a Annemieke estava a passar
por momentos difíceis. Era a quantidade de horas juntos no mesmo cubículo,
as frustrações que existem de não poder culpar ninguém dos problemas
que aparecem. Dias e dias cobertos de poeira e terra, muitas vezes sem
poder lavar a cara. Foram dias difíceis mas também foram nesses dias
difíceis, onde entendemos o quanto nos amamos. Enquanto guiávamos
de volta, naquele silêncio aterrador de quem já nem pode ver o outro,
eu quebrei o silêncio.
- Amo-te.
- Ah? - como se não tivesse ouvido,
apenas para eu repetir mais uma vez.
- Amo-te.
- Também te amo - disse sorrindo, mostrando
o enorme contraste entre os seus dentes e a sua pele negra de sujidade.
- O mundo está a meter-nos à prova.
Nós sonhamos mas temos de lhe provar que somos merecedores do nosso
sonho. Olha para trás, para os últimos dias. Quantas pessoas neste
mundo viram o que nós vimos, fizeram o que nós fizemos. De certeza
que um dia mais tarde, quando olharmos para esta viagem estes serão
os momentos que iremos lembrar com mais emoção, porque estes foram
os mais difíceis de conquistar.
- Tens razão, foram dias lindos, de
alegria e tristeza mas dias de emoções que já mais iremos esquecer.
O que vamos fazer, achas que o carro vai poder ser arranjado?
- Não sei, só sei que não iremos desistir.
Vais estar ao meu lado?
- Sempre, nunca iremos desistir. Nunca.
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